21 de janeiro de 2012

Janis Joplin I



Poemas que aparecem entre as linhas doutras escritas:

Janis Joplin, a cantora de blues dos anos sessenta, é um bom exemplo de mulher fera cujos instintos resultárom feridos polas forças que esmagárom o seu espírito. A sua vida criativa, a sua inocente curiosidade, o seu amor à vida e a sua atitude um tanto irreverente em relaçom com o mundo nos anos do seu desenvolvimento fôrom despiedadamente censurados polo seu professorado e por muitas das pessoas que a rodeavam na surenha comunidade baptista branca da sua época, na que tanto eram encarecidas as virtudes da "boa menina".
[.../...]
Há algo em Bessie Smith, Anne Sexton, Edith Piaf, Marilyn Monroe e Judy Garland que segue a mesma pauta de instinto ferido, que é própria da fame da alma: a tentativa de "encaixar", a sua conversom em alcolizadas, a sua incapacidade para se deter. Poderiamos elaborar uma listagem muito longa de mulheres com o instinto ferido que, no vulnerável estado em que se encontravam, tomárom umas decisons muito desacertadas. Como a menina do conto, todas elas perdérom polo caminho as suas sapatilhas feitas a mão e chegárom até os prejudiciais sapatos encarnados. Todas morriam de tristura, pois estavam famintas de alimento espiritual, de relatos da alma, de naturais vagabundeios, de adornos pessoais de acordo com as suas necessidades, de aprendizagem divina, duma sã e singela sexualidade. Porém elegérom sem querer os sapatos malditos -as crenças, as acçons, as ideias que provocárom o progressivo deterioro da sua vida- e estes virárom-nas espectros entregados a uma dança aloucada.
 clarissinha: mulheres... pág. 329

6 de janeiro de 2012

curandeira II: a corva

a corva, trabalhando, numa imagem de lavozdegalicia
uma das mulheres de mais sona na minha comarca era a corva. a corva de pardemarim
a corva era compostora. dedicava-se a arranjar ossos, escordaduras e mãos abertas. também era esperta em estômagos caídos e em re-colocar paletilhas. nom cobrava um peso por esse trabalho. 

para chegar a pardemarim, desde a estrada que vai a lalim, havia que passar polo fojo. gostavamos de sentar á beira da estrada e contar os carros que viravam cara a pista da bemposta. esses vam para a corva. passavam até mercedes benz!, para nós isso era do mais surprendente: gente rica indo a uma curandeira.
na taberna de lídia, uma casinha mais pequena que o loureiro que pousa nos seus muros, vendiam-se as vendagens e panos dos que gostava a corva. 
ás vezes parava alguém e perguntava timidamente como chegar a pardemarim. ah, ti vas à corva!, gostavam de dizer bem alto os  meus vizinhos, como para pôr em evidência ao doente encoberto.

houvo uma tempada em que nom saiamos do cruze: andava nas línguas da gente que bebeto, jogador do deportivo, estava a ser tratado pola corva. e lá botavamos as tardes, por ver se passava num super-mercedes ou parava a mercar lenços na taberna de lídia.

nunca chegamos a vê-lo.

curandeira I

Pandereteira

nos mitos, os cantos sanam as feridas e som utilizados para atrair as peças de caça. as pessoas atraem-se por meio do canto dos seus nomes. a dor é aliviada e um mágico alento restaura o corpo. os mortos som evocados ou ressuscitam por meio do canto.
dize-se que toda criaçom estivo acompanhada por um som ou uma palavra pronunciada em voz alta, um som ou uma palavra pronunciados com o alento.
considera-se que o canto procede de uma misteriosa fonte que outorga sabiduria a toda a criaçom, todos os animais e os seres humanos, as árvores, as plantas e qualquer ser que escuite.
nos contos dize-se que todo quanto tem seiva tem canto.
clarissinha: mulheres... pág. 260


a foto tirei-na de aqui. é de appleando e leva por título pandereteira.


5 de janeiro de 2012

patchwork I

abuela bordando :)


a imagem é de sempre: uma avó afastando o bastidor para comprovar que o desenho é percebido. a mesma avó achegando o bastidor a uns olhos cansos e míopes de tanto trabalhar na agulha e ás escuras.

mas o poema também é um guia para a leitura do livro: se na olhada ao pormenor temos cada um dos textos com a sua pequena estória, na olhada panorâmica podemos abarcar uma história das mulheres desde os inícios da humanidade até o hoje.


 a imagem tirei-na de aqui, é de laura ramos e leva por título abuela bordando.


ponto escondente

o ponto escondente na olhada de hortensia fernández
este ponto é tam útil como invisível. é aquel que serve para cerzir remendos, para ocultar nódoas ou reparar roçaduras. a arte está em passar o fio por entre as febras do tecido, por entre a trama, para que desde o exterior nom seja visto.
quase todos os trabalhos das mulheres tivérom lugar na clandestinidade, nom por ilegais, mas por nom-vistos, por ocultados. muitas das estórias protagonizadas por mulheres o fôrom portas adentro da casa, do cárcere. e boa parte do seu labor em pro da causa comum, da res publica, negado ou desvalorizado. 

para que um homem participasse numa guerrilha e libertasse um povo
para que um homem descobrisse a lei de gravitaçom universal
para que um homem escrevesse o melhor romance da história
para que um homem estudasse a estrutura fina do sistema nervoso central

uma mulher cozeu pam, coseu roupas, atendeu as crianças e os doentes, lavou  a colada, lavrou os campos, organizou as despesas, teceu o enxoval, deu apoio e aguentou as visitas. ás agachadas. sem lugar nas enciclopédias.

aquiltadas: urdidura

Echino Patchwork Quilt - Dec 2010
assim devedes visualizar aquiltadas -a enxugar na seneira-; cada quadrinho, um poema.

o trabalho em retalhos consiste em unir tecidos diferentes em formatos diversos para, no conjunto, construir uma colcha, uma manta, um bolso, um qualquer objecto de utilidade. a arte do patchwork era muito vantajosa para aproveitar e reutilizar roupagens velhas.
aquiltadas recolhe a tradiçom do patchwork e há de ser lida como se um cobertor fosse: cada poema tem entidade própria e aparece recolhido no seu bloco particular. 

como nas colchas de retalhos, cada poema corresponde a um modelo prévio, neste caso temático. repartim os textos segundo oito temas diferentes, aos que chamei pontos: o sufridoso, o laboriado, o afamadeiro, o naturante, o escondente, o costuroso, o fabuleiro e o historiado.
mas isso nom quer dizer que essa continuidade temática tenha linealidade no livro. nom. como em qualquer colcha, os poemas estám distribuidos de maneira aleatória por toda a área.
assim, podedes escolher dous (ou mais) modos de leitura: a lineal ou a temática.

porém, o feito de andar a reciclar tecidos (técnicas, protagonistas, vozes...) faz que haja múltiplas inter-relações entre uns poemas e outros, ou que o mesmo texto pudera ser aplicado a um ou outro ponto. mas isso já é cousa vossa, leitoras e leitores.


a foto tirei-na de aqui, é autoria de Sarah @ pingsandneedles e leva por nome echino patchwork quilt.


aquiltadas: definiçom

My creation: My Goodness that was alot of work..but succeeded in the end :)
a técnica do patchwork aplicada á fotografia


aquiltadas quer ser:
  • uma colcha de retalhos, também chamada quilt e elaborada com a técnica do patchwork.
  • um livro de poemas
  • um livro de história
  • uma história feita poemas
  • uma homenagem a todas as [diversas] mulheres que no mundo fôram

aquiltadas nom quer ser:
  • um cúmulo de poemas para engordar um livro
  • o livro de História
  • uma ode encomiástica á Mulher

a imagem tirei-na de aqui, é de Grakus Art.