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28 de janeiro de 2012

ponto sufridoso

o sufrimento visto por hortensia fernández

o ponto sufridoso nom é possível sem dor. o fio, de la algodom seda, tanto tem, precisa de tanta tensom para que dê um bom fim, que acaba por machucar os dedos que o trabalham. quando nom os lacera. por vezes, acabas por nom sentir as mãos, depois duma tarde de labor.
este ponto há que diz que é básico para a elaboraçom dos tecidos, mas na realidade, sempre há outros alternativos que nom torturam o corpo da que ganduja.
a resistência ao sufrimento é algo que ás mulheres nos é suposta. e nom deixa de ser certo se atendemos à história que nos precede e à realidade que nos envolta. certo é que som milhões as pessoas que no mundo sofrem, mas também é certo que há sufrires que só afectam ás mulheres ou que a elas afectam exponencialmente:
  • os maus tratos e a violência de gênero
  • o asédio sexual
  • a tranformaçom do lar num cárcere
  • a mutilaçom de órgãos sexuais
  • o distinto valor da nossa palavra perante a lei
  • os casamentos obrigados mediante dote
  • a obriga social de parir ou abortar (aseghum a moralidade do concebimento)
  • a discriminaçom e remuneraçom desigual no trabalho
  • ...

as estatísticas indicam que uma de cada três mulheres seremos vítimas da violência quando menos uma vez na vida: disso fala o ponto sufridoso.

21 de janeiro de 2012

ponto fabuleiro

hortensia fernández veste assim o ponto fabuleiro

a fibra que melhor senta a este ponto é a imaginaçom. como dá um tecido mesto e espesso, é habitual utilizá-lo para prendas de abrigo. quando a realidade é fria e hostil, nada melhor que tirar da fábula para proteger-se da congelaçom. a chave para que este ponto dé bom resultado é gandujá-lo ao tempo que escuitamos estórias, vemos umha boa película ou atendemos á letra duma cançom.
no ponto fabuleiro acolho dous tipos de textos.
  • por uma banda, reviso ou ad(a)opto personagens literárias femininas que fam parte do nosso imaginário colectivo, e que muitas vezes servírom de modelo na nossa educaçom. eram as mulheres que (nom) tinhamos que ser: a cinsenta, a branca de neve, a carapuchinha, a bela adormecida, as bruxas...mas também as boas e as más das tele-novelas, as lara croft, as sereias, as mouras, as deusas gregas e as virgens cristãs. de muitas delas aprendemos uma versom burguesa e disney a ocultar uma outra imagem da mulher mais heterogênea e varia.
  • por outra parte, seguindo as teorias de ria lemaire, dou acolhida neste ponto fabuleiro, a gêneros femininos da literatura de tradiçom oral, que com o tempo fôrom engolidos pola literatura escrita, desprezados pola alta cultura (masculina, claro), ou mesmo desaparecidos: os contos populares narrados ao pé do lar, a cantiga de amigo, o canto de berce, a adivinha, as sortes e rezas, os cantares do romanceiro, os cantos de labor, etc.
claro que, este ponto é o mais fácil de combinar com qualquer outro, polo que na realidade, recorre todo o poemário aportando calidez aos outros pontos utilizados.

5 de janeiro de 2012

ponto escondente

o ponto escondente na olhada de hortensia fernández
este ponto é tam útil como invisível. é aquel que serve para cerzir remendos, para ocultar nódoas ou reparar roçaduras. a arte está em passar o fio por entre as febras do tecido, por entre a trama, para que desde o exterior nom seja visto.
quase todos os trabalhos das mulheres tivérom lugar na clandestinidade, nom por ilegais, mas por nom-vistos, por ocultados. muitas das estórias protagonizadas por mulheres o fôrom portas adentro da casa, do cárcere. e boa parte do seu labor em pro da causa comum, da res publica, negado ou desvalorizado. 

para que um homem participasse numa guerrilha e libertasse um povo
para que um homem descobrisse a lei de gravitaçom universal
para que um homem escrevesse o melhor romance da história
para que um homem estudasse a estrutura fina do sistema nervoso central

uma mulher cozeu pam, coseu roupas, atendeu as crianças e os doentes, lavou  a colada, lavrou os campos, organizou as despesas, teceu o enxoval, deu apoio e aguentou as visitas. ás agachadas. sem lugar nas enciclopédias.

aquiltadas: urdidura

Echino Patchwork Quilt - Dec 2010
assim devedes visualizar aquiltadas -a enxugar na seneira-; cada quadrinho, um poema.

o trabalho em retalhos consiste em unir tecidos diferentes em formatos diversos para, no conjunto, construir uma colcha, uma manta, um bolso, um qualquer objecto de utilidade. a arte do patchwork era muito vantajosa para aproveitar e reutilizar roupagens velhas.
aquiltadas recolhe a tradiçom do patchwork e há de ser lida como se um cobertor fosse: cada poema tem entidade própria e aparece recolhido no seu bloco particular. 

como nas colchas de retalhos, cada poema corresponde a um modelo prévio, neste caso temático. repartim os textos segundo oito temas diferentes, aos que chamei pontos: o sufridoso, o laboriado, o afamadeiro, o naturante, o escondente, o costuroso, o fabuleiro e o historiado.
mas isso nom quer dizer que essa continuidade temática tenha linealidade no livro. nom. como em qualquer colcha, os poemas estám distribuidos de maneira aleatória por toda a área.
assim, podedes escolher dous (ou mais) modos de leitura: a lineal ou a temática.

porém, o feito de andar a reciclar tecidos (técnicas, protagonistas, vozes...) faz que haja múltiplas inter-relações entre uns poemas e outros, ou que o mesmo texto pudera ser aplicado a um ou outro ponto. mas isso já é cousa vossa, leitoras e leitores.


a foto tirei-na de aqui, é autoria de Sarah @ pingsandneedles e leva por nome echino patchwork quilt.


aquiltadas: definiçom

My creation: My Goodness that was alot of work..but succeeded in the end :)
a técnica do patchwork aplicada á fotografia


aquiltadas quer ser:
  • uma colcha de retalhos, também chamada quilt e elaborada com a técnica do patchwork.
  • um livro de poemas
  • um livro de história
  • uma história feita poemas
  • uma homenagem a todas as [diversas] mulheres que no mundo fôram

aquiltadas nom quer ser:
  • um cúmulo de poemas para engordar um livro
  • o livro de História
  • uma ode encomiástica á Mulher

a imagem tirei-na de aqui, é de Grakus Art.

3 de janeiro de 2012

ponto costuroso

o ponto costuroso rendilhado por hortensia fernández

um dos pontos mais complicados de urdir, pois há de servir para arranjar e para criar, para cerzir e para bordar. tem a qualidade de invisível mas imprescindível. tende á desapariçom, arrasado polo velcro, a cola e outras modernidades.
escrevendo um livro com estrutura de colcha de retalhos, havia de ter um apartado dedicado em exclusiva aos trabalhos do tecido e a costura. fòrom estes, por tradiçom e história, labores femininos. 
eram as mulheres da casa, nas noites de invernada, as que trabalhavam a lã, o linho, o esparto e qualquer outra fibra para fazer delas vestimenta. 
eram elas que aprenderam (e provavelmente descobriram) a arte da tingidura. 
e elas passârom, de geraçom em geraçom as diversas castes de calceta, rendilhado, crochet, bordado, patchwork, etc. que vestem as nossas pessoas e os nossos lares.

2 de janeiro de 2012

água

mulheres carretando. a casamança, verám de 2006.
visitei a casamança, entre o senegal e a guiné bissau, há uns anos. daquela ficou em mim gravada a evidência de que os avanços sociais som limitados no tempo e, sobretodo, no espaço. liberdades que tanto tempo e sangue e vidas levaram conquistar para as mulheres do ocidente, e que muitas vivemos como naturais e evidentes, ainda ficam utopicamente longe para as mulheres deste tempo mas doutras terras. 

a evidência era patente no quotidiano, no labor simples e calado de fazer-se com água potável. essa mesma água que a mim chega através de canos e torneiras e facturas de aquagest, outras tenhem que ir buscá-la cada dia, a primeira hora da manhá, ás fontes, aos poços, ao regato, aonde puder. 

nascêrom desta evidência dous poemas, um entrou nas instalações do livro [de]construçom; o outro abre este aquiltadas.

se água ocupa o primeiro quilte do poemário nom é  por acaso. á água questiona duma maneira dupla a concepçom cronológicamente lineal da história: aquilo que hoje nós temos nom é o mesmo que hoje tenhem noutros lugares, noutras culturas, outras mulheres do planeta.

por outra banda, a água responde á essa concepçom lineal com a súa organizaçom cíclica. é nom só gosto da imagem da água que se transforma, contamina, depura, congela, derrete, chove, sem deixar por isso de ser água, mas também da ideia de movimento que transmite: a água circula, move-se, é dinâmica, nom como a História, estática, estável, descontaminada e imóvel.

aquiltadas é uma história de água.

O ciclo da água visto por alexandre ono.

28 de dezembro de 2011

da história 1

Wedding Ring Quilt
A estrutura do patchwork altera a linealidade e permite diferentes leituras

se a História é construída partindo de Grandes Factos, okupar a história com quotidianas anedotas.
se a História é construída de histórias, okupar a história com estórias.
se a História é construída em prosa acadêmica, okupar a história com versos.
se a História é construída no centro, okupar a história desde as margens.
se a História é construída desde a certeza, okupar a história com dúvidas.
se a História é construída linealmente, okupar a história com vazios, nós e volumes.
se a História é construída com fontes documentais, okupar a história com tradiçom oral.

se a História é construída com homens, encher a história de mulheres.


9 de dezembro de 2011

a elena buscalavida

lavadoiro do rio do com, em vila-garcia, onde tinha o seu lugar elena buscalavida



quando publiquei o poemário [de]construçom, dediquei-lho com um verso às casas das que provenho, e que sempre encontram um momento na quotidianeidade da vida familiar para agromar:

venho das eiras de portaris dos arines

na casa dos meus avós de cea sempre corremos o risco de ser colocados na casa das eiras, a do meu avô, pois era essa a parte neura da família, com uma bisavó de significativo alcume bruxa má.
por contra, a minha avó glória contava de contino estórias da casa grande de portaris, casa perdida e de ausência lamentada.
eu e meus irmáns criamo-nos também com a cantilena de possuir um apelido raro, em perigo de extinçom: esse arines que eu des-deturpei em arins.

e foi aí que notei a falta duma casa. 

porque a minha outra avó, a mai da minha mai, nom tinha casa nomeada, e bem sabemos que quem nom tem nome, nom existe.
elena buscalavida foi lavandeira e tivo uma filha das silveiras, de arrimo. lavou panos, lenços e roupas alheias para manter essa menina que é minha avó. porém, o feito de ter sacado adiante uma filha sem ajudas e com um trabalho duro como o de lavandeira, em vez de ser motivo de orgulho era em realidade um tabu familiar. era um assunto que nom se falava nas sobremesas e sim em secreta rexouba. pouco mais sabe minha mai da sua avó e das suas circunstâncias vitais.

a minha bisavó é uma mais das muitas mulheres, que merecendo ser conhecidas, fôrom apagadas da história.  e tanto tem se essa história é a grande ou uma das pequenas, a história de um país ou duma família, a duma profissom ou a duma paróquia.

e foi para ela, para a sua memória e a de todas as outras mulheres sem nome, que eu escrevim este livro.

6 de dezembro de 2011

how to make an american quilt



a ideia nasceu deste filme, how to make an american quilt. há bem de anos que o visionei, e nom sei se a lembrança que guardo dele tem relaçom com a realidade. estas som as minhas memórias:

típico filme de sobremesa, estreios tv, sentimental, aquilo do que renegamos se queremos ser inteletuais. a típica estória da filha pródiga: menina que antes de tomar a decisom da sua vida (como sempre, casar ou nom casar, essa é a questom) volta á vila de origem a passar uns dias de descanso. 

na casa máter, as mulheres da sua família, tias, avós, amighas de neinice, dedicam as horas a construir para ela um wedding quilt: segundo a tradiçom familiar, antes de cada casamento, as mulheres juntam-se e trabalham, elaborando cada uma um bloco em que (e eis está a aportaçom do filme...) cada uma faz referência ao facto da sua vida que pode servir de aprendizagem para a vida futura da casadeira.

assim, o wedding quilt deixa de ser uma colcha de retalhos para passar a ser uma história das mulheres transmitida de mães a filhas. sempre que mantenham a tradiçom.

eu decidim fazer minha a tradiçom. e para as mulheres pessoas da minha família recolhim no meu livro-manta um manado de mulheres que fórom e que algo nos podem aprender ás mulheres pessoas que somos.

3 de dezembro de 2011

aquiltadas: o nome

Capa em Xerais de Herba Moura, de Teresa Moure
aquiltar: [ing. quilt] colocar a memória de pessoas
numa colcha de retalhos.

primeiro foi patchwork, e assim levam de título os três poemas geradores, aqueles que fam referência á arte de tricotar, gandujar e coser, todo junto e misturado. 
porém, algumhas das primeiras lectoras duvidaram do título: uma palavra inglesa... já está mui visto... olha o erva moura da moure, até o leva na capa... e comecei a dar-lhe voltas...

eu gostava de patchwork porque essa é tal qual a estrutura do poemário: um conjunto de retalhos de diferentes procedências (literatura de tradiçom oral, cinema, história, idade meia, literatura culta, antropologia, televisom, século xx...) entramados com diferentes técnicas para construir uma colcha, um livro. mas tinha na cabeça esses comentários.
do sintagma colcha de retalhos (a traduçom mais aproximada de patchwork) nom acabava de gostar, pois para mim os retalhos traiam consigo uma conotaçom de resto, sobrante ou desperdício que em absoluto se correspondia com o valor que eu lhe dava ao livro e as estórias que este recolhe.

assim que dei em inventar a palavra que dera título ao conxunto, que para algo sou poeta: como em realidade o livro brinca com o concepto do indo-americano wedding quilt, optei por brincar eu com essa palavra inglesa e galeguizá-la no neo-verbo aquiltar: colocar pessoas numa colcha de retalhos.

e assim nasceu aquiltadas, evocando também, para mim, uma outra palvra: o quilate, a capacidade de pór em valor a história das mulheres que eu coloco em cada poema. o objectivo deste livro.