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21 de janeiro de 2012

curandeira III


quando andava a artelhar este livro ao tempo que lia lenta e intensamente clarissa, adoeceu camino, uma amiga. deixamos de vê-la da noite para a manhá, ingressou no hospital, submeteu-se ao poder da ciência médica e os avanços da técnica, mas seguia doente. 
o seu corpo suportou as agressons das terápias, em versom rádia e química, e o seu espírito aguentou um longo isolamento entre quatro muros esterilizados e purificados de germes. porém, seguia doente. 
andados os messes, fomos assumindo todos, ela mesma, família e amizades, que nem medicina nem técnica nem terápias davam arranjado o seu corpo descalabrado.
foi entom que eu desejei ser xamã, huesera, loba, ou simples curandeira. também quigem conhecer o canto, a reza, a invocaçom divina ao deus ou deusa que fosse.
foi entom que escrevim este poema.


a fotografia tirei-na de aqui. é de christiane pedros e leva por título la huesera.

6 de janeiro de 2012

curandeira II: a corva

a corva, trabalhando, numa imagem de lavozdegalicia
uma das mulheres de mais sona na minha comarca era a corva. a corva de pardemarim
a corva era compostora. dedicava-se a arranjar ossos, escordaduras e mãos abertas. também era esperta em estômagos caídos e em re-colocar paletilhas. nom cobrava um peso por esse trabalho. 

para chegar a pardemarim, desde a estrada que vai a lalim, havia que passar polo fojo. gostavamos de sentar á beira da estrada e contar os carros que viravam cara a pista da bemposta. esses vam para a corva. passavam até mercedes benz!, para nós isso era do mais surprendente: gente rica indo a uma curandeira.
na taberna de lídia, uma casinha mais pequena que o loureiro que pousa nos seus muros, vendiam-se as vendagens e panos dos que gostava a corva. 
ás vezes parava alguém e perguntava timidamente como chegar a pardemarim. ah, ti vas à corva!, gostavam de dizer bem alto os  meus vizinhos, como para pôr em evidência ao doente encoberto.

houvo uma tempada em que nom saiamos do cruze: andava nas línguas da gente que bebeto, jogador do deportivo, estava a ser tratado pola corva. e lá botavamos as tardes, por ver se passava num super-mercedes ou parava a mercar lenços na taberna de lídia.

nunca chegamos a vê-lo.

curandeira I

Pandereteira

nos mitos, os cantos sanam as feridas e som utilizados para atrair as peças de caça. as pessoas atraem-se por meio do canto dos seus nomes. a dor é aliviada e um mágico alento restaura o corpo. os mortos som evocados ou ressuscitam por meio do canto.
dize-se que toda criaçom estivo acompanhada por um som ou uma palavra pronunciada em voz alta, um som ou uma palavra pronunciados com o alento.
considera-se que o canto procede de uma misteriosa fonte que outorga sabiduria a toda a criaçom, todos os animais e os seres humanos, as árvores, as plantas e qualquer ser que escuite.
nos contos dize-se que todo quanto tem seiva tem canto.
clarissinha: mulheres... pág. 260


a foto tirei-na de aqui. é de appleando e leva por título pandereteira.