28 de janeiro de 2012

lupanar II

La Loba, Rómulo y Remo

os lobos sãos e as mulheres sãs compartem certas características psíquicas: uma aguda percepçom, um espírito lúdico e uma elevada capacidade de afecto. os lobos e as mulheres som sociáveis e inquisitivos por natureza e estám dotados de grande força e resistência. som também extremadamente intuitivos e preocupam-se com fervor polas suas crias, as suas parelhas,  a sua manada. som experientes na arte de adaptar-se às circunstâncias, sempre mudáveis e som feramente leais e valentes.
e, sem embargo, ambos fôrom perseguidos, acossados e falsamente acusados de ser vorazes, taimados e demasiado agressivos e de valerem menos que os seus detratores. fôrom o branco daqueles que nom só quereriam limpar a selva mas também o território salvagem da psique, sufocando o instintivo até nom deixar rasto dele.
a depredaçom que exercem sobre os lobos e as mulheres aqueles que nom os comprendem é surprendentemente similar.
clarissinha: mulheres... pág. 12.

a imagem tirei-na de aqui. é de javivázquez e leva por título la loba, rómulo y remo.

lupanar I

Lobo


o lobo, nom deixando de ser uma espécie de cam com quatro patas, rabo e orelhas, é na realidade, um animal quase mitológico. povoa muitos dos contos populares da tradiçom galega -perguntem a fole- e, levando anos ausente de boa parte da geografia do país, continua a provocar iras e ódios nas aldeias: o lobo rouba o gando, mata sem por isso alimentar-se, tem querência polas pessoas, pode seguir-te uma noite até ficares aterecida polo medo, e quando a lua nom está cheia, pode virar num salvagem ser humano.

o lobo é o mau da película em muitas histórias: a carapuchinha, os três porquinhos, a cabuja e as suas crianças, o menino pedro, todos devem cuidar-se deste fero animal. e nom digamos da sua versom menos loba, a do lobisomem...

se o lobo é mau, quê dizer da loba, cujo covil dá nome ao bordel...

a imagem tirei-na de aqui. é de freakyman e leva por título lobo.


ponto sufridoso

o sufrimento visto por hortensia fernández

o ponto sufridoso nom é possível sem dor. o fio, de la algodom seda, tanto tem, precisa de tanta tensom para que dê um bom fim, que acaba por machucar os dedos que o trabalham. quando nom os lacera. por vezes, acabas por nom sentir as mãos, depois duma tarde de labor.
este ponto há que diz que é básico para a elaboraçom dos tecidos, mas na realidade, sempre há outros alternativos que nom torturam o corpo da que ganduja.
a resistência ao sufrimento é algo que ás mulheres nos é suposta. e nom deixa de ser certo se atendemos à história que nos precede e à realidade que nos envolta. certo é que som milhões as pessoas que no mundo sofrem, mas também é certo que há sufrires que só afectam ás mulheres ou que a elas afectam exponencialmente:
  • os maus tratos e a violência de gênero
  • o asédio sexual
  • a tranformaçom do lar num cárcere
  • a mutilaçom de órgãos sexuais
  • o distinto valor da nossa palavra perante a lei
  • os casamentos obrigados mediante dote
  • a obriga social de parir ou abortar (aseghum a moralidade do concebimento)
  • a discriminaçom e remuneraçom desigual no trabalho
  • ...

as estatísticas indicam que uma de cada três mulheres seremos vítimas da violência quando menos uma vez na vida: disso fala o ponto sufridoso.

ode fundacional II

#8 August 4th week.

o bardo enfúndase pantalóns negros de coiro
o bardo absorbe cubatas na barra dos bares
o bardo berra himnos patrios no salón vermello

que din os rumorosos na costa verdecente?
que din os rumorosos na costa verdecente?

-non din nada non din nada, monada


o bardo das idades regresa tarde á casa
é dos que nunca petan cos cotenos na porta
é dos que pegan un berro e unha épica patada
(a patada etílica de estilo masculino)

o bardo usa o seu puño de ferro
o puño de ferro cargado nos bares
o puño que sempre peta na muller
(a costela edénica o repouso do guerreiro)


catorce denuncias na comisaría
catorce impresos impregnados de sangue

a policía atende amable a muller
a polocóa viste uniforme de home

os homes non choran pero violan
os homes píllanas entre os pinos soas

na parede da comisaría hai un calendario azul
na bandeira da tribo tamén hai unha franxa azul

carlos negro: far west, 2001.


a imagem tire-na de aqui. é de david silvosa e leva por título ¿que din os rumorosos na costa...  a sua série nest week... next sentence é muito interessante.

21 de janeiro de 2012

curandeira III


quando andava a artelhar este livro ao tempo que lia lenta e intensamente clarissa, adoeceu camino, uma amiga. deixamos de vê-la da noite para a manhá, ingressou no hospital, submeteu-se ao poder da ciência médica e os avanços da técnica, mas seguia doente. 
o seu corpo suportou as agressons das terápias, em versom rádia e química, e o seu espírito aguentou um longo isolamento entre quatro muros esterilizados e purificados de germes. porém, seguia doente. 
andados os messes, fomos assumindo todos, ela mesma, família e amizades, que nem medicina nem técnica nem terápias davam arranjado o seu corpo descalabrado.
foi entom que eu desejei ser xamã, huesera, loba, ou simples curandeira. também quigem conhecer o canto, a reza, a invocaçom divina ao deus ou deusa que fosse.
foi entom que escrevim este poema.


a fotografia tirei-na de aqui. é de christiane pedros e leva por título la huesera.

ponto fabuleiro

hortensia fernández veste assim o ponto fabuleiro

a fibra que melhor senta a este ponto é a imaginaçom. como dá um tecido mesto e espesso, é habitual utilizá-lo para prendas de abrigo. quando a realidade é fria e hostil, nada melhor que tirar da fábula para proteger-se da congelaçom. a chave para que este ponto dé bom resultado é gandujá-lo ao tempo que escuitamos estórias, vemos umha boa película ou atendemos á letra duma cançom.
no ponto fabuleiro acolho dous tipos de textos.
  • por uma banda, reviso ou ad(a)opto personagens literárias femininas que fam parte do nosso imaginário colectivo, e que muitas vezes servírom de modelo na nossa educaçom. eram as mulheres que (nom) tinhamos que ser: a cinsenta, a branca de neve, a carapuchinha, a bela adormecida, as bruxas...mas também as boas e as más das tele-novelas, as lara croft, as sereias, as mouras, as deusas gregas e as virgens cristãs. de muitas delas aprendemos uma versom burguesa e disney a ocultar uma outra imagem da mulher mais heterogênea e varia.
  • por outra parte, seguindo as teorias de ria lemaire, dou acolhida neste ponto fabuleiro, a gêneros femininos da literatura de tradiçom oral, que com o tempo fôrom engolidos pola literatura escrita, desprezados pola alta cultura (masculina, claro), ou mesmo desaparecidos: os contos populares narrados ao pé do lar, a cantiga de amigo, o canto de berce, a adivinha, as sortes e rezas, os cantares do romanceiro, os cantos de labor, etc.
claro que, este ponto é o mais fácil de combinar com qualquer outro, polo que na realidade, recorre todo o poemário aportando calidez aos outros pontos utilizados.

as sapatilhas encarnadas 1

National Aids Trust (NAT) - Walk for Life - Red Shoes
Estou no centro
duma cidade morta
e amarro as sapatilhas encarnadas...
Nom som minhas.
Som da minha nai.
E da sua nai.
Transmitidas como uma herdança,
mas agachadas como cartas vergonhosas.
A casa e a rua que lhes corresponden
estám agachadas e todas as mulheres também
estám agachadas...

Anne Sexton, penso que do poemário Transformations, 1971.


A versom original e completa do poema, podedes lê-la aqui. e, porfavorinho, tradutoras, traduzide-me esse livro!

a imagem tirei-na de aqui. é de NAT - National AIDS Trust e leva por título red shoes.