4 de janeiro de 2012

da educaçom sentimental

capa dum romance de corín tellado

quando cursei o terceiro ciclo na usc, houvem de preparar uma disertaçom sobre as vedetes, de cassandra rios, para o seminário de literatura brasileira.
eu nem sabia quem era cassandra rios, mas nom estranhei, dadas as minhas brasileiras lacunas literárias. primeiro lim o romance, e depois de ter ficado espantada (acepçom padrom) com a leitura, sentim curiosidade sobre se a sua temática teria causado espanto (acepçom galega) no público da época. 

cassandra rios escreveu as vedetes em plena ditadura, sob o espadom enorme da censura. e as vedetes conta as estórias de um grupo de artistas de revista, os seu amores, as suas andanças noturnas por rio e são paulo, e nom deixa de ter cabida no romance assuntos como o consumo de drogas ou a homosexualidade, masculina, e sobretodo, feminina. tudo isto em plena década de '70. guau!

3 de janeiro de 2012

carapuchinha

A minha tia-avó, Pilar Arines Otero, que contou esta estória muitas vezes.

outoniça tarde, santo adriám de cobres, a olhar o mar.

A POETA: olha, aí quer a minha tia que a esparjamos em cinsas quando morra.

O MUSO: em são simom? e ló?

A POETA: sei que ia aí quando menina. quando campo de concentraçom.

O MUSO: tinhades família presa?

A POETA: nom. era um amigo da família. mas nom da dos meus avôs. porque pilar vivia com uns tios dela, que a tinham meio de criada meio pro-filhada. como ela tinha epilepsia todo o mundo pensava que era aparvada e foi viver com essa gente. esse tio era advogado, família rica, mas devia ser meio republicano, porque ela sempre conta que nos primeiros dias do golpe, ele nom parava na casa a dormir, por se o iam buscar...

O MUSO: ...e acabou em são simom...

A POETA: noooom. pilar estava encarregada de levar-lhe, cada dous dias, o jantar a um preso amigo da família, um galeguista conhecido, nom lembro o nome. porque os presos com dinheiro e contatos podiam receber comida de fóra. e alá ia ela, com a cestinha, a levar as viandas do coleguinha do padrinho... e diz que via toda a miséria que suportavam os presos e as famílias querendo passar e o barqueiro que cobrava e havia quem nom podia pagar... por isso quer ir para aí. do cemitério nom gosta.

O MUSO: quanto tempo tinha ela?

A POETA: nom sei, nunca lhe perguntei. suponho que nom havia de ser tam nova, para andar sozinha polos caminhos...

O MUSO: ou precisamente para isso: uma menina sempre é menos suspeitosa que um adulto. imagino que seria como a carapuchinha.

A POETA: a carapuchinha? anda! acabas de dar-me um poema!

assim nascem os poemas.

ode fundacional I

eu quero uma outra mátria com uns outros símbolos

que povo poder ser povo fundado em valores que nom acolhem a toda a sua povoaçom?


essa é questom que resume e ressuma este poema.

e a questom nasce, evidentemente de aqui, de aqui, de aqui e de aqui. porque continuamos a relativizar a pegada do sexismo.

o desenho é dos afamados aduaneiros sem fronteiras, que durante uma boa tempada questionarom, desde a rede e o humor, os símbolos pátrios galegos.

ponto costuroso

o ponto costuroso rendilhado por hortensia fernández

um dos pontos mais complicados de urdir, pois há de servir para arranjar e para criar, para cerzir e para bordar. tem a qualidade de invisível mas imprescindível. tende á desapariçom, arrasado polo velcro, a cola e outras modernidades.
escrevendo um livro com estrutura de colcha de retalhos, havia de ter um apartado dedicado em exclusiva aos trabalhos do tecido e a costura. fòrom estes, por tradiçom e história, labores femininos. 
eram as mulheres da casa, nas noites de invernada, as que trabalhavam a lã, o linho, o esparto e qualquer outra fibra para fazer delas vestimenta. 
eram elas que aprenderam (e provavelmente descobriram) a arte da tingidura. 
e elas passârom, de geraçom em geraçom as diversas castes de calceta, rendilhado, crochet, bordado, patchwork, etc. que vestem as nossas pessoas e os nossos lares.

ao voo do papagaio

O bairro do papagaio numa das fotografias de maribel longueira

poema escrito após a leitura/visionado do livro e da exposiçom o papagaio, de maribel longueira e luisa villalta.

partindo das fotografias da primeira, feitas no bairro do papagaio da crunha antes da sua demoliçom, luisa villalta escreveu os poemas e, a duas mãos, construírom um livro que devorei lentamente, oxímoro palpável. o bairro do papagaio vinha a ser o equivalente ao bairro do pombal compostelám, é dizer, o bairro das putas. 

as putas estám muito mal vistas socialmente, mas a nível individual, entanto pessoa dedicada á prostituçom, porque entanto grémio, também é certo que uma grande maioria as considera necessárias. como, se nom,  tantos homens vam libertar os seus instintos instintosos e inevitáveis? ao terem uma utilidade social, sobretodo de controlo social, ajudando a manter a hipócrita instituiçom familiar (desafogamos a libido nas traseiras para deixar tranquilas as varandas), som aceites mentres se mantenham escondentes e dêm lucros econômicos, meretrizes plusvalias.

nom acontece o mesmo com as mulheres que se negam a ter crianças. admitir publicamente que uma nom quer ter filhos é expor-se a ser marcada como antinatural, pouco mulher, egoísta, rara, libidinosa, má e, finalmente, puta.  

enfim, no fundo, a mesma cousa.

2 de janeiro de 2012

água

mulheres carretando. a casamança, verám de 2006.
visitei a casamança, entre o senegal e a guiné bissau, há uns anos. daquela ficou em mim gravada a evidência de que os avanços sociais som limitados no tempo e, sobretodo, no espaço. liberdades que tanto tempo e sangue e vidas levaram conquistar para as mulheres do ocidente, e que muitas vivemos como naturais e evidentes, ainda ficam utopicamente longe para as mulheres deste tempo mas doutras terras. 

a evidência era patente no quotidiano, no labor simples e calado de fazer-se com água potável. essa mesma água que a mim chega através de canos e torneiras e facturas de aquagest, outras tenhem que ir buscá-la cada dia, a primeira hora da manhá, ás fontes, aos poços, ao regato, aonde puder. 

nascêrom desta evidência dous poemas, um entrou nas instalações do livro [de]construçom; o outro abre este aquiltadas.

se água ocupa o primeiro quilte do poemário nom é  por acaso. á água questiona duma maneira dupla a concepçom cronológicamente lineal da história: aquilo que hoje nós temos nom é o mesmo que hoje tenhem noutros lugares, noutras culturas, outras mulheres do planeta.

por outra banda, a água responde á essa concepçom lineal com a súa organizaçom cíclica. é nom só gosto da imagem da água que se transforma, contamina, depura, congela, derrete, chove, sem deixar por isso de ser água, mas também da ideia de movimento que transmite: a água circula, move-se, é dinâmica, nom como a História, estática, estável, descontaminada e imóvel.

aquiltadas é uma história de água.

O ciclo da água visto por alexandre ono.

ponto afamadeiro

o ponto afamadeiro visto para o livro por hortensia fernández

este ponto nom tem muita complicaçom: atiras do fio das mulheres que neste mundo grande fama tivêrom. desenguedelhas as informações falsas, dás-lhe uma volta virada ás informações ocultadas e passas, cada três pontos, uma dúvida para o direito.

as mulheres que a nós chegárom, através do fio da história, o figérom vistas de óculos deformados polo poder e o patriarcado. a imagem que delas temos, em muitas ocasiões, é uma imagem corrompida, por adoçada, por moderada, por atenuada, por amansada enfim. 
o ponto afamadeiro busca revis[it]ar a figura dalgumas destas mulheres, introduzindo, com a homenagem a parte delas, uma versom diferente da sua estória.